A arte de prever

Fernando Calmon

Imaginar o que acontecerá com o mercado de veículos no Brasil em 2009, com certo grau de precisão, está difícil. Uma sinalização até poderia vir do exterior, mas lá o cenário continua confuso e incerto.

GM e Chrysler apresentaram ao Congresso americano os planos de viabilidade das empresas, sem os quais não continuariam a ter acesso a empréstimos oficiais favorecidos. No mês passado, as vendas internas nos EUA foram, pela primeira vez na história, inferiores às da China. Para um mercado que já chegou a beirar 18 milhões de unidades, a queda de 16 milhões (2007) a menos de 11 milhões em apenas três anos (previsão para 2009) é uma catástrofe. Ao final de 2009, 300 milhões de americanos mesmo assim conseguirão ter comprado mais carros que 1,3 bilhão de chineses. No entanto, a perda definitiva da liderança mundial é questão de tempo.

Na Europa, o socorro do governo francês, disfarçado em investimentos para novas tecnologias, beneficiando os dois grupos nacionais – PSA Peugeot Citroën e Renault – já causa reações negativas em outros países produtores da União Européia. Afinal, é uma injeção de 6 bilhões de euros, enquanto governos vizinhos, até agora, se limitaram a ações pontuais e de baixo impacto financeiro. Aquele montante, em termos proporcionais, quase equivale ao dinheiro para GM e Chrysler. Como a situação evoluirá, uma incógnita.

Janeiro foi um mês muito ruim para a indústria automobilística mundial. Até na China houve recuo de vendas em relação a dezembro. O Brasil foi exceção: cresceu 1,5%, o que motivaria comemoração em situação tão adversa. Ao contrário do que alguns pensam, o governo não proporcionou nenhum empréstimo a fundo perdido às fábricas. Houve liberação de crédito ao comprador final, a taxas de mercado, e diminuição temporária de impostos. Mas, muitos países seguiram a mesma fórmula de estímulo e os mercados continuaram caindo.

Inaugurando um ciclo de palestras na SAE Brasil, semana passada em São Paulo, Letícia Costa, presidenta da consultoria Booz&Co, previu que a repetição do patamar de vendas de 2008, em 2009, já seria um ótimo resultado. Não afastou a possibilidade de queda, porém o recuo ficaria limitado aos volumes ainda bons de 2007. Os números finais dependerão do crescimento da economia. Ela descarta qualquer possibilidade de 4% de expansão do PIB. O governo continua mantendo esse nível como meta, o que ninguém pode levar a sério.

Para a Anfavea, fazer qualquer previsão é complicado. Se tender ao otimismo, haverá quem pressione o governo para terminar com os “privilégios” da indústria automobilística ao final de março, como está previsto. Se for pessimista, levantará uma onda de que será necessário prorrogar a diminuição do IPI por mais um trimestre. Isso ocorrendo, existe o risco de o consumidor adiar as compras e interromper o ciclo de diminuição dos estoques que, em dezembro, assustou bastante ao alcançar quase dois meses de venda. Ao final de janeiro, estavam em 31 dias, um pouco distante do nível ideal de 25 dias.
Sem a normalização dos estoques, fica difícil planejar o nível de produção e de emprego nos próximos meses. E, ainda mais, exercitar a arte de prever.
Fonte: Automotive Business