A boa surpresa no desempenho do varejo

Estado de São Paulo
9 de julho 2020
Celso Ming

Ficha do Brasil continua ruim, mas expectativa é de retomada gradativa do
consumo, da produção e do emprego
A melhora no astral da economia, o tema comentado nesta Coluna na última
sexta-feira, ficou reforçada nesta quarta com um avanço das vendas do varejo
em maio bem superior ao esperado. As projeções oscilaram em torno de um
aumento de 6% a 8% nas vendas do mercado restrito (que excluem materiais
de construção e veículos), mas o crescimento foi de fato de 13,9%
A recuperação ainda está longe dos níveis anteriores à pandemia porque em
março já havia recuado 2,8% e, em abril, outros 16,3%. (É bom sempre lembrar
de uma peculiaridade estatística: uma queda de 100 para 50 é de 50%, mas a
recuperação de 50 para os 100 anteriores terá de ser de 100%.)
Levando-se em conta que boa parte do comércio continua fechada ou sujeita a
fortes restrições, o progresso em maio é auspicioso, embora tenha partido de
uma base anterior muito baixa.
Esse bom desempenho se deve em boa parte aos efeitos do auxílio
emergencial distribuído à população carente. É o que explica por que, apesar
do recuo geral do consumo em março e em abril, as vendas dos
supermercados tenham crescido 14,3% em maio e 5,2% nos cinco primeiros
meses deste ano. Esse é um setor ao qual a crise não chegou, como também
não chegou às farmácias.
Mas a recuperação do varejo em maio, especialmente nos segmentos de
vestuário, móveis e aparelhos domésticos, deve-se, também, à demanda
reprimida acumulada nos meses anteriores: porque permaneceram
engaioladas pela pandemia, as famílias tiveram de adiar suas compras e
voltaram a elas tão logo as lojas foram reabertas, ainda que parcialmente.
Talvez porque parte dessa descompressão já tenha acontecido, o aumento das
vendas nos próximos meses ficará mais limitado.
Tanto melhor se o desalento vai ficando para trás. Esse é, por si só, um fator
positivo porque ajuda na recuperação por sua capacidade de restaurar a
confiança. Mas não se pode ignorar que as condições gerais da economia
pioraram muito: o desemprego alcança 12,7 milhões de brasileiros e já são em
maior número que os empregados com carteira de trabalho registrada; as
estimativas mais otimistas são de que o PIB afundará alguma coisa entre 6% e
7%; o rombo das contas públicas pode ter ultrapassado os 10% do PIB; a

dívida pública bruta passou dos 81% do PIB e se avizinha rapidamente dos
100% do PIB; as cotações do dólar avançaram 33,3% neste ano, fator que
encareceu as importações; um grande número de empresas está à beira da
insolvência porque enfrenta um colapso de caixa, e muitas outras estão
superendividadas. Nem mesmo se pode dizer que a pandemia está regredindo,
porque o número de infectados e o número de mortes seguem aumentando. E
há ainda a crise política.
Enfim, a ficha do Brasil continua ruim. Vai precisar de muito conserto e de
andamento nas reformas tributária e administrativa, hoje emperradas. Mas a
expectativa para os próximos meses é de retomada gradativa do consumo, da
produção e do emprego.