Anfavea insiste em culpar só imposto por preço alto no Brasil

 Entidade destaca carga tributária, mas não abre caixa preta dos preçosGIOVANNA RIATO, ABA Anfavea, associação dos fabricantes de veículos, enfim apresentou o estudo do preço do carro vendido no Brasil, prometido desde que Luiz Moan tomou posse como presidente da entidade, em 2013. Os dados reunidos, no entanto, tratam mais da carga tributária do que efetivamente do quanto um consumidor precisa desembolsar para comprar um automóvel. “O brasileiro paga dois carros e leva um”, simplifica o dirigente. Segundo destaca Moan, um automóvel com motor entre 1.0 e 2.0 tem carga tributária de 54,8% no País, considerando o total de impostos aplicados sobre o preço de custo do veículo e os tributos embutidos na cadeia produtiva e não-recuperáveis. Com isso, o Brasil tem encargos mais pesados do que países como a Rússia, onde os impostos chegam a 22%, e os Estados Unidos, onde o porcentual é de 7,5%. Para carros com motorização até 1.0 a carga é de 48,2%. Segundo a Anfavea, isso quer dizer que vão para os cofres públicos 27,1% do preço de venda de um veículo da categoria. Traduzindo em moeda, Moan aponta o exemplo do Fiat Palio Fire, automóvel mais barato à venda no Brasil, com preço de tabela de R$ 28,3 mil para a versão duas portas 1.0. Convertido em dólar, na cotação de janeiro deste ano, o montante daria US$ 7,3 mil. Caso fosse descontada toda a carga tributária apontada pela Anfavea, este preço cairia para US$ 4,9 mil, valor baixo se comparado com os preços internacionais. Pode até ser, mas o Palio Fire e seu baixo nível de conteúdo só existe no Brasil e países vizinhos, portanto não há como compará-lo com um carro global. Além disso, o real desvalorizado deixa qualquer veículo bem barato em dólares. Moan insiste que, mesmo com tantos encargos, o preço do carro brasileiro evolui em ritmo menor do que a inflação. O IPCA, considerando toda a economia, aumentou 187,3% de 2004 a 2015, ao passo que a evolução dos valores dos veículos neste mesmo período foi de 123,4%. “Em 1995 um Volkswagen Gol custava o equivalente a US$ 9 mil, o que correspondia a 107 salários mínimos. Em 2015 este valor era de US$ 8,2 mil, algo em torno de 40 salários mínimos”, indica. Claro, o salário mínimo subiu acima da inflação e o real perdeu mais de 50% de seu valor diante do dólar só no último ano, o que distorce completamente essa comparação. MAS E O PREÇO DO CARRO? Os dados expostos pela Anfavea mostram que o plano de abrir a caixa preta do preço do carro no Brasil ficou só na promessa. No lugar de um estudo do valor cobrado por automóveis no País, a entidade mostrou levantamento sobre a carga tributária. Há quase três anos a Anfavea declarou estar trabalhando no material. Ainda assim, os dados foram divulgados oportunamente quando o dólar está valorizado, o que dá a falsa impressão de que os preços praticados no Brasil estão abaixo do mercado global. A comparação mais justa deveria ser feita pela paridade de poder de compra ao mostrar, por exemplo, quantos salários médios são necessários para comprar determinado carro no mercado nacional e em outros países. Neste caso, o modelo analisado teria de ter o mesmo nível de equipamentos nos dois países, incluindo sistemas como controle eletrônico de estabilidade ESC, que é obrigatório na Europa, mas localmente ainda tem participação tímida nas vendas.
Fonte: Automotive Business