Após nebulosa prisão de Ghosn, futuro da Renault-Nissan está em risco

    Nenhum grupo pode ser administrado por um só executivo, que dirá um conglomerado que fabrica mais de 10 milhões de automóveis por ano com sedes na Europa e na Ásia. Mas a prisão de um único homem, o franco-brasileiro Carlos Ghosn, lança dúvidas sobre a sobrevivência da aliança entre as montadoras Renault, Nissan e Mitsubishi. Ghosn presidia o conselho de administração das três companhias. As próximas horas devem trazer novos desdobramentos de uma história ainda nebulosa.

    O presidente da Mitsubishi Motors, Osamu Masuko, já reconheceu que será difícil gerir os negócios sem Ghosn. Preso na segunda-feira por suspeitas evasão fiscal, Ghosn deve ser demitido pelo conselho de administração da Nissan em reunião na quinta-feira (madrugada de quarta para quinta no Brasil). Ontem, o conselho de Renault indicou um substituto provisório, mas decidiu manter o brasileiro interinamente no cargo.

    Ghosn, de 64 anos, coordenou pessoalmente a fusão entre Renault e Nissan, em 1999. Sua prisão envolve também os governos da França e do Japão, o que torna a história ainda mais sensível. Ontem, o ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, afirmou que “Ghosn não está mais em posição de liderar a Renault”. Le Maire afirmou, porém, que não exige a saída formal de Ghosn do conselho de administração da Renault porque “não temos nenhuma prova e seguimos o devido procedimento legal”. O Estado francês detém 15% da Renault, que por sua vez detém 43% da Nissan. O governo japonês, por sua vez, é sócio tanto da Nissan quanto da Mitsubishi.

    O grupo francês Renault nomeou nesta terça-feira dois executivos para assumirem provisoriamente o comando da companhia no lugar do brasileiro, que foi mantido como presidente do conselho, embora “temporariamente impedido”. As ações da Nissan fecharam em baixa de 5,45% na terça-feira, enquanto as da Mitsubishi Motors caíram quase 7%. As ações da Renault caíram 10% nos últimos dois dias.

    Nesta terça-feira a imprensa japonesa divulgou mais detalhes dos supostos crimes cometidos pelo executivo. Uma filial holandesa da Nissan teria adquirido imóveis no Rio de Janeiro, em Paris, em Amsterdã e em Beirute em benefício de Ghosn. Para a promotoria de Tóquio, as compras fariam parte de receitas não declaradas de 44 milhões de dólares ao regulador da bolsa japonesa.

    A história teria sido revelada pela própria Nissan, após meses de investigações internas. Mas a trama se complicou ontem. Segundo o jornal britânico Financial Times, Ghosn estava planejando um fusão total entre Renault e Nissan antes de ser preso, num movimento que o conselho da companhia japonesa tentava bloquear. Ainda segundo o Financial Times, o relacionamento entre Ghosn e o presidente executivo da Nissan, Hiroto Saikawa, havia se deteriorado nos últimos meses, por conta de resultados aquém do esperado obtidos pela montadora japonesa.

    Saikawa afirmou que a prisão era resultado de uma concentração excessiva de poder com uma só pessoa. A responsabilidade do franco-brasileiro ainda precisa ser provada. Com ele ou sem ele, a Nissan, e Saikawa em particular, tem um abacaxi nas mãos. Em 2017, a margem operacional da montadora caiu 1,5 ponto percentual, para 4,8%.