Aumento de recalls divide opiniões

Soraia Abreu Pedrozo
Do Diário do Grande ABC

Durante o ano de 2008 o número de veículos convocados para realizar recalls – chamadas das montadoras para reparar algum defeito de fabricação ou substituir peça danificada -, cresceu substancialmente em comparação ao ano passado.

A grande questão que divide opiniões é se tal crescimento se deve a uma maior atenção por parte das empresas com relação à segurança do consumidor ou se deve a um descaso e evidente desatenção na produção. A fabricação dos automotores cresceu 350 milhões de 2007 para cá, atingindo 2.810 milhões de unidades, entre caminhões, motos, carros de passeio, ônibus e comerciais leves. Entretanto, é preciso destacar que recalls incluem também veículos produzidos anos antes da chamada.

Segundo dados da Secretaria do Direito Econômico, do Ministério da Justiça, neste ano foram convocados 214.083 veículos a mais em relação ao ano passado, atingindo 467.897. O número praticamente dobrou. Entretanto, a quantidade de campanhas diminuiu: de 28 passou a 23.

De acordo com Rodolfo Alberto Rizzotto, autor do livro Recall – 4 milhões de carros com defeito de fábrica, lançado em 2003, e editor do site Estradas, até o momento 1.246.807 automotores foram convocados, ante 256.394 no ano passado. A diferença entre os números fornecidos se deve, conforme explica Rizotto, à não contabilização de alguns recalls por parte do órgão federal. “Há situações em que a própria montadora não contabiliza como recall. Um exemplo foi quando, há alguns meses, o Fox, da Volkswagen, apresentou um defeito no mecanismo que regula seu espaço interno. A peça provocou acidentes nos dedos de alguns proprietários e, ao todo, 510 mil veículos foram convocados”.

Para Andrea Sanchez, diretora de programas especiais do Procon-SP (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor), o crescimento das convocações não necessariamente deve ser visto com maus olhos. “Será que nos anos anteriores as montadoras sabiam dos problemas e simplesmente se calavam? Se for isso, está sendo demonstrada uma responsabilidade ao convocar mais vezes o consumidor, já que a possibilidade do produto com defeito existe”.

Na opinião de Bruno Zanei, consultor da Assurant Solutions, especializada em veículos, o aumento das chamadas para reparos nos automotores é visto como um ponto positivo, pois garante a segurança do cliente e a preocupação com o seu produto . “É ruim admitir o erro, mas é mais digno assumir a preocupação com a segurança dos clientes”.

Rizotto, que acompanha as convocações desde a década de 1990, conta que o maior problema não está nas convocações. “A iniciativa do recall é extremamente positiva, em um processo industrial é natural que ele ocorra. O maior problema é que a informação não chega a todos os proprietários, e mais de 50% dos motoristas não comparecem aos recalls”. Ou, ainda, situações em que as pessoas moram a 100 km de distância de uma concessionária e, portanto, têm de dispor de tempo, dinheiro para a viagem, pedágio e, em alguns casos, estadia. “Eles dizes que o serviço de recall é gratuito, mas não contabilizam as despesas extras que os proprietários por vezes têm. Além de utilizar o veículo com defeito”.

Fonte: Diário do Grande ABC