Começar certo

O correto seria continuar, por mais um ou dois anos, a fim de se ajustarem procedimentos, antes de ampliar o programa para automóveis e motocicletas

Texto: Fernando Calmon

(05-02-09) – O início, na cidade de São Paulo, do programa de inspeção ambiental comprova que a combinação de critérios técnicos e decisões políticas precisava ser muito bem ajustada. Infelizmente, isso não está ocorrendo. O município que registra a maior frota de veículos do País deveria se tornar um exemplo para outras metrópoles. No entanto, entre os vários erros, há efeitos de longo prazo como a dissociação entre as inspeções de emissões e de segurança. Os motoristas que pagam as contas correm o risco de ser obrigados, no futuro, a fazer dois controles separados com enorme desperdício de tempo e dinheiro.

Na realidade, o programa paulistano até que começou de forma correta, no ano passado, vistoriando veículos a diesel. Porém, houve equívocos e grande evasão que a prefeitura, convenientemente, deixou de revelar com clareza. Proprietários se queixam de prejuízos por inexperiência dos inspetores que insistiam nos testes, mesmo os motores dando sinais de debilidade mecânica. O correto seria continuar, por mais um ou dois anos, a fim de se ajustarem procedimentos, antes de ampliar o programa para automóveis e motocicletas.
Uma decisão política, totalmente equivocada, foi iniciar as vistorias agora em fevereiro pelos automóveis novos e seminovos. Nenhum argumento da Secretaria do Verde e Meio Ambiente se sustenta. Do ponto de vista educacional a medida é inócua porque antes da conscientização vem a capacidade financeira do dono do carro. Sem negar a importância de cuidar do ar que respiramos – não vai aqui nenhuma ironia –, há um dilema recorrente. Quem possui um automóvel de mais dez anos, por exemplo, vai gastar R$ 400,00 para colocar quatro pneus novos ou trocar o catalisador? Como convencê-lo sem nenhum apoio financeiro? Vai retirar o carro de circulação e leiloar como sucata?

Outra determinação inadmissível, que nenhum país do mundo civilizado tomou, foi obrigar carros com menos de três anos de uso a passar por inspeção ambiental. Situação bizarra: sistema antipoluição desenvolvido pelos fabricantes é certificado no mínimo por cinco anos ou 80.000 km. Automóveis emplacados em dezembro último, com placas de final 1, terão que ser vistoriados a partir de fevereiro! Sob ameaça de multa de mais R$ 500,00 e sem direito ao futuro licenciamento.

Em 2008, a prefeitura ordenou um programa de sensoriamento remoto de emissões no intuito de levantar o perfil poluente da frota paulistana. Os resultados existem, mas nunca foram divulgados. Obviamente porque os automóveis referidos cumpriam a legislação.
Existe suspeita de que se tomou a decisão esdrúxula com o objetivo de os donos dos veículos de maior poder aquisitivo “financiarem” a construção das estações de inspeção. A taxa será devolvida no primeiro ano. E nos outros? De qualquer forma é desperdício do dinheiro público à custa de incalculáveis aborrecimentos e perda de tempo dos motoristas.

Posição decepcionante mostrou a Anfavea que deveria ter se pronunciado, pelo menos em respeito aos clientes das fábricas. Quando questionada, limitou-se a comentar que “o importante é começar as inspeções”. Sem dúvida, mas o bom senso obriga que, antes de tudo, deva-se começar certo.

Fonte: Webmotors