´Crescimento zero será bom resultado para o Brasil em 2009´

Foto: Fabio Motta/AE
Professor de Harvard diz que País está mais bem preparado para enfrentar a crise, mas não tem como escapar de seus efeitos

Leandro Modé – O Estado de S. Paulo
Fabio Motta/AE

PESSIMISMO – Mundo enfrenta a pior recessão do pós-guerra, diz Rogoff
SÃO PAULO – O americano Kenneth Rogoff, de 55 anos, é um dos mais respeitados economistas do mundo hoje, o que não significa dizer que seja unanimidade. Suas posições ortodoxas, muitas vezes expressas de uma forma contundente, nem sempre agradam ao interlocutor. Em 2002, quando era economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), envolveu-se em uma polêmica pública com o ex-economista-chefe do Banco Mundial e ganhador do Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz. O tema da contenda era globalização.

Talvez pelo cargo que tenha ocupado, Rogoff procura manter-se atualizado sobre a economia de vários países, entre eles o Brasil. Esse conhecimento dá a ele a certeza de que o mundo está em meio à pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Nessa conjuntura, ninguém vai escapar ileso. Por isso, avisa:

o Brasil deve dar-se por satisfeito se não enfrentar uma recessão em 2009. “Crescimento zero será um bom resultado, levando-se em conta o ambiente global”, diz. Rogoff, que hoje leciona na Universidade Harvard, conversou com o Estado, por telefone, durante uma viagem de trem de Boston para Nova York.

Em um artigo publicado há duas semanas, o sr. disse que o maior problema dos países ricos é a recessão. Por isso, eles devem deixar os juros em segundo plano. O que dizer de países emergentes, como o Brasil?

Os países emergentes têm muito menos espaço para políticas contracíclicas do que os Estados Unidos e os efeitos da inflação são mais danosos. Nos EUA, a inflação reduz o valor real das dívidas e pode ser parte da solução dos atuais problemas. O Brasil não tem esse problema. Além disso, como a inflação no Brasil já é elevada, o Banco Central está entre a cruz e a espada.

Como assim?

A economia global está apenas entrando na pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. As commodities estão despencando e o mercado de crédito secou. Ou seja, é uma situação extremamente difícil e perigosa. O crescimento no Brasil certamente vai desacelerar. Mas, ao mesmo tempo, a inflação permanece elevada. Isso deixa ao Banco Central um espaço menor para responder como gostaria (à desaceleração). Além disso, o real depreciou-se fortemente. Reduzir a taxa de juros desvaloriza o real à frente. Mas, como as taxas de juros estão caindo rapidamente mundo afora, o Banco Central brasileiro acabará reduzindo dramaticamente o juro no País.

Quando?

Em breve (risos). Ainda que o Brasil esteja às voltas com preocupações inflacionárias, a economia global enfrenta o risco de deflação. Isso ocorre nos EUA, na China e na Europa. Os preços das commodities estão despencando e a produção industrial está caindo. Ou seja, o Brasil sentirá tudo isso muito em breve. Quaisquer que sejam as pressões inflacionárias, hoje, no País, elas serão revertidas em breve. Não sei por que o Banco Central brasileiro não está antevendo isso ainda. Não sei para onde eles estão olhando. Mas é difícil imaginar que o Brasil não terá uma forte queda da inflação no ano que vem, dado o ambiente internacional.

O BC do Brasil está sob grande pressão. Quais os riscos disso?

Há um risco claro de a desaceleração industrial brasileira ser ainda mais forte do que se espera. De outro lado, se baixo o juro mais rapidamente, pode alimentar a inflação além do que se espera hoje.

O sr. vê risco de recessão no Brasil?

Há uma grande chance de o Brasil experimentar uma recessão suave. É quase impossível escapar disso, uma vez que se espera uma profunda recessão no mundo. O Brasil vai sofrer como todos os outros, mas não acho que sofrerá mais do que os outros. Todas as mudanças que o Brasil implementou nos últimos anos vão permitir que a reação seja muito melhor do que há 10 anos. É uma situação desastrosa, mas, em termos relativos, o Brasil está
Fonte: O Estado de São Paulo