Detroit volta a pagar bônus


GM e Chrysler retomam velhos hábitos com dinheiro do contribuinte americano.

Pedro Kutney, AB

Em 2009, dois dos três maiores ícones da indústria automotiva americana estavam quebrados. Para continuarem vivas, as empresas precisaram receber generosas somas do Tesouro dos Estados Unidos. Foram injetados US$ 49,5 bilhões na GM e US$ 12,5 bilhões na Chrysler. A intervenção governamental custou o emprego de muitos dos executivos que ganharam verdadeiras fortunas em bônus e dirigiram as companhias para o precipício. Por isso o socorro foi aprovado sob a condição de que as corporações adotassem, dali por diante, políticas de austeridade financeira, com limites salariais e cancelamento de gratificações à alta direção.

No entanto, depois que a tempestade passou e GM e Chrysler varreram dos balanços suas dívidas antigas, os velhos hábitos estão de volta, com a retomada este ano de gordas remunerações extras aos seus executivos. As duas companhias pretendem pagar até o próximo mês a alguns de seus altos executivos, os mesmos que aprovam esses gastos, bônus que podem chegar a 50% dos salários regulares, segundo informações obtidas esta semana pela agência Bloomberg.

No caso da Chrysler, que apurou prejuízo de US$ 652 milhões em 2010, a média dos pagamentos aos seus 10.755 trabalhadores administrativos foi estimada em US$ 10 mil por cabeça, sendo que menos de 1% deles, os diretores, receberão bonificação igual à metade de seus salários mensais. Já os empregados horistas filiados ao sindicato United Auto Workers (UAW) vão receber cada um, em média, US$ 750 – o equivalente a apenas 1,3% da renda anual de um operário filiado ao UAW na Chrysler.

Apesar de o presidente da GM, Dan Akerson, ter dito em dezembro que os trabalhares assalariados da companhia iriam renunciar ao recebimento de bônus em 2010, os 26 mil empregados administrativos nos Estados Unidos vão receber de 4% a 16% do salário mensal, de acordo com “o desempenho individual”, informou a montadora. A gratificação poderá chegar a 72% do salário para executivos que excederam as metas de 2010, quando a GM, livre do peso das dívidas passadas, obteve lucro líquido de US$ 4,77 bilhões nos três primeiros trimestres do ano.

Para cada um dos 45 mil trabalhadores horistas das suas fábricas nos Estados Unidos a GM estima pagar o mínimo de US$ 4 mil a título de participação nos lucros e resultados. Será a maior gratificação já paga aos horistas da companhia em toda a história, equivalente hoje a pouco mais de 6% dos vencimentos anuais de um empregado sindicalizado. O último valor recorde, de US$ 1.775, foi pago em 1999.

O movimento já começou a produzir gritaria no Congresso americano, onde senadores e deputados dizem que os contribuintes do país devem ser pagos antes, especialmente no caso da GM, na qual o Tesouro dos Estados Unidos detém 33% de participação acionária – e para recuperar o que colocou na companhia precisaria vender suas ações no mercado a US$ 53,07 cada uma (na quarta-feira o papel foi negociado a US$ 36,40 na Bolsa de Nova York). Os congressistas culpam o governo por não ter colocado regras mais rígidas ao conceder a ajuda, permitindo que as empresas voltem a pagar altos bônus a seus executivos, ao mesmo tempo em que os acionistas – incluindo aí os contribuintes – não recebem nada.

A Ford, única das três grandes de Detroit que não recebeu ajuda do governo, chegou ao fim de 2010 recuperada, com lucro líquido apurado de US$ 6,56 bilhões. Por isso é a mais generosa, sem preocupações éticas: anunciou que vai pagar, em média, US$ 5 mil a cada um de seus 40,6 mil trabalhadores horistas nos Estados Unidos – ou 8,3% do salário anual.

Estratégia

As notícias de pagamento de bônus elevados aos executivos das montadoras americanas aparecem exatamente no momento em que todas elas estão em negociações salariais com o UAW, para fechar o contrato para 2011. O sindicato, que também fez concessões na crise, poderá exigir valores maiores se forem confirmados os bônus graúdos para os diretores.

Fonte: Automotive Business