Dispendiosa reinvenção do automóvel

Nos encontros de executivos do setor automotivo, a reinvenção do automóvel é um tema que já se tornou corriqueiro. O consultor Bernd Gottschalk, ex-presidente das associações de fabricantes de veículos alemã e mundial, resume: “É tempo de pensar em novas maneiras de fazer e de usar veículos”.

Algumas pistas já revelam o caminho que será percorrido: aumentará a utilização de eletrônica embarcada nos veículos, níveis de conforto e segurança ganharão uma importância nunca antes imaginada e o que hoje são celebradas como alternativas energéticas, em breve, farão parte da realidade. Mais ainda: a fim de cumprir as necessidades do mercado e dos governos, os sistemas produtivos também sofrerão fortes transformações.

A degradação ambiental, as rigorosas normas de emissão e as exigências da sociedade criaram difícil equação para os fabricantes de veículos resolverem: conceber algo inteiramente novo, reciclável e longe de ser encarado como vilão, responsável pelas mazelas do trânsito e do ambiente.

Toda a indústria tem ciência do enorme desafio à frente, mas se debate para resolver muitas missões sem perder rentabilidade, justamente num momento no qual a economia mundial patina e as vendas caem. Ao computar somente os investimentos nas diferentes etapas da legislação de emissão de poluentes, já foram gastos vários bilhões de dólares sem compensação financeira equivalente.

“Não é à toa que as três maiores fabricantes dos Estados Unidos pediram US$ 50 bilhões ao governo para desenvolver veículos mais eficientes e menos poluentes. Eles simplesmente não têm esse dinheiro para gastar agora”.

Em segurança ativa e passiva vão-se outros bilhões. E os governos de todos os países do mundo estão cada dia mais rigorosos quanto a essa questão. As restrições impostas, no fim e ao cabo, tornam mais caros os veículos sem que esse custo possa ser repassado ao consumidor – este também mais arisco aos gastos com combustível e manutenção.

As sonhadas economias de escala com os carros mundiais também não deram certo. A aspiração revelou-se inadequada, pois cada país tem culturas de consumo diferentes, delineadas não só por preferências visuais e espaciais, mas por preço. Surgiram então as plataformas mundiais, que ainda não se apresentaram como solução para problemas regionais.

Todas as variáveis ocorrem ao mesmo tempo e, não poderia ser diferente, os executivos dessa poderosa indústria ficam cada vez mais aturdidos. Como resolver tanta coisa ao mesmo tempo? É hora, como salienta Gottschalk, de reinventar o automóvel. E de pagar uma salgada conta.

(O jornalista viajou a convite da Delphi)
(Fred Carvalho, de Frankfurt)

Fonte: Boletim Autodata