Em ponto morto-1

As megamontadoras de Detroit pedem socorro ao governo e anunciam o fim de uma era perdulária

Ivan Marsiglia – O Estado de S.Paulo

A crise financeira atropelou a indústria automobilística nos Estados Unidos – mas o grande motor do setor produtivo americano há muito tempo começou a falhar. É o que afirma o sociólogo Adalberto Moreira Cardoso, de 46 anos, organizador, ao lado do colega Alex Covarrubias, de A Indústria Automobilística nas Américas – A Reconfiguração Estratégica e Social dos Atores Produtivos, lançado em 2006 pela Editora UFMG.

Doutor pela Universidade de São Paulo e professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Cardoso vê com preocupação o risco de falência das três gigantes de Detroit: Chrysler, Ford e General Motors (GM). Para ele, o grande erro das montadoras americanas foi avançar o sinal na produção de utilitários esportivos de alto luxo – os famosos SUVs (Sport Utility Vehicle), que faziam a cabeça do novo-riquismo perdulário da era da bolha financeira. Com o estouro, foi-se o crédito ilimitado e, com ele, o que restava de competitividade às montadoras.

Na entrevista a seguir, o professor discute as conseqüências da crise nas matrizes americanas e em suas subsidiárias no Brasil, mostra por que houve “um abandono do universalismo fordista” em favor do sistema Toyota de produção e aposta que, apesar dos defensores do transporte coletivo, o automóvel ainda vai movimentar o mundo por muito tempo.

Essa semana o mundo assistiu à impressionante cena dos CEOs da Chrysler, da Ford e da GM passando o pires em busca de ajuda do governo para evitar sua falência. O que está acontecendo com as supermontadoras de Detroit?

A indústria automobilística americana vai mal das pernas faz algum tempo. O que a crise fez foi aprofundar um problema que ela vinha enfrentando desde que os preços do petróleo dispararam. São várias as razões, mas em especial o fato de que, nos últimos 20 anos, essas montadoras investiram em modelos de automóveis cada vez mais caros.

O senhor está falando dos SUVs, os utilitários esportivos de alto luxo?

Exatamente. São automóveis 40, 50, até 100% mais caros que os convencionais. Utilizam mais aço, borracha, materiais de alto custo. E, por isso, são pesados, pedem motores possantes e consomem muita gasolina. São carros fabricados olhando para trás – para a época em que o petróleo era fonte abundante e barata. Essas montadoras basearam-se em premissas inteiramente equivocadas, do ponto de vista ecológico e de sua própria sobrevivência. Uma opção que decorreu justamente da enorme facilidade de crédito nos últimos anos. Qualquer pessoa era capaz de comprar uma casa e um automóvel do preço de uma casa. Aí o crédito secou, afetando a indústria automobilística dos EUA tanto quanto o mercado de imóveis.

Era uma estratégia insustentável…

Já há alguns anos, vivemos uma crise de superprodução de automóveis. Existe uma capacidade instalada no mundo superior à capacidade de consumo. Antes isso não aparecia porque o crédito barato permitia que as pessoas trocassem de carro todo ano. Aí veio a crise e o problema, que estava sendo empurrado com a barriga, revelou-se incontornável.

Já em 2005, com condições de crédito favoráveis para todos, o lucro da Toyota Motors ultrapassou os ganhos da GM, Ford e Chrysler juntas. Em 2007, ela virou a maior empresa automobilística do mundo. Como se explica tal dianteira?

A Toyota é uma empresa muito particular. Ela fez uma opção global muito cedo, antes das outras. Se instalou na Europa, na Ásia, nos EUA e na América do Sul com um programa de expansão e investimento muito bem-sucedido em uma faixa de mercado. Apostou em veículos para a classe média e em alguns de altíssima qualidade. Fez picapes e utilitários de alto luxo como os da GM, só que muito mais baratos. É uma questão de eficiência. A Toyota é capaz de reduzir custos de produção via organização do trabalho, introdução de tecnologias e inovação no uso de materiais.

O fordismo,
Fonte: O Estado de São Paulo