Enxame de carros no pátio. Socorro!

Gazeta Mercantil | | 10/11/2008 – 09h58

Apenas de janeiro a setembro deste ano, as remessas de lucros e dividendos ao exterior alcançaram US$ 27,500 bilhões, 83,54% a mais que no mesmo período do ano passado (US$ 14,983 bilhões).
A previsão do Banco Central (BC) é de que essas transferências atinjam US$ 30 bilhões em 2008. Previsão conservadora, a julgar pelo movimento de câmbio no mercado financeiro em outubro (vendas de US$ 2,157 bilhões).

Com vendas recordes de 2,208 milhões de automóveis novos de janeiro a setembro, 27% a mais que nos primeiros nove meses do ano passado (1,739 milhão), as montadoras tiveram lucros excelentes. Que continuaram em outubro (vendas de 2,45 milhões de veículos em comparação com 1,98 milhão de janeiro a outubro de 2007, um crescimento 23,7%).

Mal começa o mês de novembro, o governo anuncia que os bancos das montadoras vão receber R$ 4 bilhões do Banco do Brasil para financiar a compra de carros. Noticia-se que o Banco Nossa Caixa, controlado pelo governo paulista, também deve ter participação nesse esforço destinado a reforçar o setor automobilístico, com poderoso efeito multiplicador na economia brasileira.

Qual a ligação entre esses fatos? A crise global de crédito, que começou no centro, estendeu-se à periferia ou, como seria mais correto dizer hoje, aos países emergentes. O primeiro efeito, que já vem desde o ano passado, foi o de compelir as subsidiárias de multinacionais instaladas fora dos Estados Unidos, da Europa e do Japão a retornar para suas matrizes todos os recursos que tivessem à sua disposição, fossem lucros ou não.

Em alguns casos, isso ajudou, mas não resolveu. O governo dos Estados Unidos já injetou US$ 25 bilhões na General Motors, Chrysler e Ford. Mas as três grandes de Detroit estão pedindo mais auxílio do seu governo: querem US$ 50 bilhões, para se reposicionarem no mercado. Essa prodigalidade de Washington é contestada por analistas independentes. Se o governo ajudou os bancos, as indústrias automobilísticas, por que não fazê-lo com relação às companhias aéreas e com o sistema ferroviário, também afetados pela recessão? – pergunta Jeffrey E. Garten, professor da Universidade Yale, em artigo na Newsweek (10/11). E por que não, comenta ironicamente, amparar as companhias petrolíferas que tanto têm sofrido com a queda abrupta do preço do óleo?

O Brasil ficou numa posição parecida. Também começa a se discutir aqui até que ponto pode ir o governo para “salvar” setores em apuros. Certamente, a agricultura merece recursos, o crédito não pode faltar para a exportação e não seria inaceitável que deixássemos o setor de habitação à míngua, depois da expansão que teve com reflexos tão benéficos sobre o emprego. E é justo que se prorrogue por dez dias o pagamento de impostos. Sim, o governo tem-se empenhado em sanar as deficiências mais gritantes criadas pela crise, mas encontrará um limite, o qual não poderá ultrapassar, a não ser que esteja disposto a aceitar um violento déficit do setor público e a abandonar o compromisso com o combate à inflação.

Mas não é só isso que se discute. O governo tem usado e abusado do BB, acolitado pelo Nossa Caixa, e da Caixa Econômica Federal (CEF). Para alguns, isso é a porta aberta para a estatização e o instrumento para isso seria a MP 443, ainda em exame pelo Congresso. Bancos de montadoras, por exemplo, só existem no Brasil e, se não podem funcionar com recursos das multinacionais que os controlam e têm de ser ajudados pelo governo, para que mantê-los independentes?

Suspeita-se de estatização, mas os acionistas de instituições públicas de capital aberto, como o BB e a Nossa Caixa, têm razão em preocupar-se com as políticas de socorro, que podem impactar negativamente os lucros. Não fosse pelo risco, os bancos privados não estariam na retranca.

Fonte: Webtranspo