Feirões já respondem por 25% das vendas

Recurso usado para desovar estoques antigos, os feirões de fábrica foram incorporados à rotina das montadoras

Cleide Silva

Os feirões de fábrica, ação antes usada para desovar estoques, foram incorporados à rotina das montadoras e hoje já respondem por cerca de 25% das vendas de carros novos no País. Quem apostava que o apelo estava esgotado não contava com a tradicional mania do brasileiro de sempre ?tirar vantagem?. Nos feirões, a ordem é fazer volume de vendas e os próprios organizadores admitem que ?quem chora? consegue um bom negócio.

A secretária Sandra Cristina Siegal Breno, de 43 anos, seguiu a receita e acaba de adquirir seu primeiro automóvel zero quilômetro. “Consegui economizar entre R$ 3 mil a R$ 4 mil na aquisição do carro e de opcionais em relação aos preços pesquisados nas lojas”, diz ela. Na quinta-feira, Sandra retirou o Prisma 1.0 comprado dez dias antes em um feirão da Chevrolet realizado pelo grupo Pallazo na Marginal do Tietê. O carro será pago em 60 prestações.

O evento, feito no final de semana estendido com o feriado de Tiradentes, levou ao local mais de 1,6 mil pessoas. “Vendemos 382 carros em quatro dias, enquanto nossa média mensal é de 340 unidades”, informa Carlos Palazzini, dono da empresa.

Além dos feirões de fábrica e de concessionárias, as montadoras alugam amplas áreas para os eventos, como estacionamentos de shopping center e até de clube de futebol. Na semana retrasada, a General Motors realizou um feirão no Estádio da Portuguesa, na Marginal do Tietê, corredor que vem se tornando um dos mais disputados para essas ações.

Especializada no varejo de carros e na realização de feirões, a empresa MSantos calcula que mais de 160 mil veículos foram adquiridos em feirões no primeiro trimestre deste ano, o equivalente a 25% das vendas totais de modelos novos. No ano passado, essa participação não chegava a 10%, informa o economista Ayrton Fontes, responsável por pesquisas na MSantos.

“O clima de festa e euforia que se cria nos feirões é propício às vendas”, diz Fontes. O investimento para um evento desse porte é elevado, pois inclui, além da área das atrações, gastos com propaganda. O custo de um evento fica entre R$ 1,1 milhão a R$ 1,4 milhão.

“Os vendedores têm metas de fazer volume de vendas e acabam negociando preços e condições diferentes daqueles praticados nas lojas”, afirma Fontes, para quem a vantagem é maior “principalmente para o consumidor que chora na hora de fazer um negócio.”

Os próprios lojistas que se unem num único local também competem entre si e acabam oferecendo ofertas. “O poder de barganha do consumidor é maior”, afirma Rodrigo Rumi, gerente regional de marketing e vendas da General Motors. Bancos que patrocinam os eventos oferecem taxas e prazos diferenciados.

INCORPORADOS

Este ano, o número de feirões está acima do ano passado, quando o mercado estava aquecido e muitos modelos estavam em falta. “Todas as empresas estão fazendo pelo menos um feirão por mês e essa estratégia deve ser mantida até o fim do ano”, prevê Rumi.

Nos 13 finais de semana do primeiro trimestre, a Ford realizou quatro feirões e vendeu 25% de todo o volume acumulado no período.

Rumi calcula que um fim de semana de feirão a GM vende entre 40% a 50% a mais do que um fim de semana normal, só com ações nas revendas. Além das vantagens, os eventos oferecem entretenimento. “Normalmente temos espaços para as crianças com brincadeiras, e espaços onde as mulheres podem arrumar o cabelo”, diz Rumi.

Para o diretor da consultoria ADK, Paulo Garbossa, os feirões “já estão incorporados ao mercado de veículos”. Complicado é conseguir um local adequado, pois nem sempre o pátio da fábrica é o ideal. “Há épocas em que há fila de espera por áreas”, diz Fontes. Em São Paulo, cinco das áreas mais utilizadas para essa finalidade estão na Zona Norte, quatro delas na Marginal Tietê. O Campo de Marte é de uso exclusivo da GM, que tem um acordo com os responsáveis.
Fonte: O Estado de São Paulo