Flex próximo dos 10 milhões


Wagner Oliveira
Do Diário do Grande ABC

Perto de atingir a produção de 10 milhões de veículos flex, a tecnologia bicombustível passa por seu principal desafio desde que surgiu, em 2003. Até então, o preço do álcool nunca havia disparado tanto na maior parte do País, perdendo em competitividade para a gasolina – combustível reconhecidamente de melhor qualidade. A vantagem desapareceu até mesmo em São Paulo, Estado em que o preço, há sete anos, sempre favoreceu o uso do combustível vegetal.

Só que agora, o consumidor tem a chance real de comprovar o principal argumento a favor da tecnologia: regular o preço dos combustíveis, ao optar pelo o que for melhor para o bolso, o que nem sempre é a escolha certa para o meio ambiente.

O aumento repentino dos preços – segundo os primeiros argumentos provocados pelo excesso de chuvas – surpreendeu até mesmo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos principais defensores da tecnologia flex no mundo. Durante evento na Capital paulista na semana passada, o presidente pediu seriedade aos usineiros ao lembrar que o uso do álcool quase foi suprimido no Brasil nos anos 1980, quando os produtores optaram por priorizar a produção do açúcar para obter vantagens financeiras.

“Não pode ser assim. O álcool quase acabou neste País porque não havia seriedade”, disse Lula, em referência à postura dos empresários do setor.

O presidente determinou aos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e da Agricultura, Reinhold Stephanes, uma reunião com representantes do setor para esta semana. “Se passarmos para o mundo a ideia de que não estamos dando sequer conta do mercado interno, não vamos vender no mercado externo”, alertou.

Ao surgir e ganhar envergadura, o veículo flex brasileiro surpreendeu o mundo. A tecnologia, que não tem similar, foi aprimorada no Brasil ao permitir o uso de dois combustíveis em qualquer proporção. O seu desenvolvimento colocou o País no centro do debate sobre a sustentabilidade. Além disso, atraiu investimentos, despertou o interesse do consumidor e alavancou a vendagem de automóveis.

“A solução do fluxo despertou o interesse estrangeiro pelo Brasil em relação às fontes alternativas”, afirmou o engenheiro Francisco Estagnas, vice-presidente da SAE (Sociedae dos Engenheiros da Mobilidade). “Até que o carro elétrico não esteja totalmente desenvolvido, o flex é a melhor solução.”

Nos últimos sete anos, os motores bicombustíveis evoluíram muito. Com uma melhor combustão interna tanto do álcool quanto da gasolina, ficaram mais potentes, econômicos e confiáveis. “Aquela história de que o propulsor flex é um pato feio – não anda, não voa nem nada bem – é conversa fiada. O motor flex atual é um excelente e confiável produto”, afirma Francisco Nigro, engenheiro e consultor energético da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo.

Para ele, tudo o que não pode acontecer é o abalo de confiança do consumidor. Segundo Nigro, antes do reajuste de preço, 65% da frota de flex era abastecida com álcool pela vantagem financeira. O etanol é viável só quando custa em média 70% do preço da gasolina, por ser energeticamente inferior.

Fonte: Diário do Grande ABC