Juros para financiar carro sobem 100%

                                             Paula Cabrera
Do Diário do Grande ABC

O arrocho do crédito anunciado pelo BC (Banco Central) na última semana já começa a mostrar suas garras sobre o consumidor. Empresas de financiamento de veículos anunciaram tabela com tarifas que chegam ao dobro do cobrado anteriormente. A perspectiva do mercado é que, com a retirada de R$ 61 bilhões da praça, a saída de automóveis diminua até 20% em 2011. Na semana passada as vendas já despencaram 15%, segundo fontes do setor.

Estudo recente feito pela agência de promoções e pesquisas automotivas MSantos mostra que as taxas de juros para financiamentos sem entrada, acima de 24 vezes, já variam entre 1,6% e 2,5% ao mês, dependendo do prazo. Antes, os juros oscilavam entre 1,3% e 1,4%, nos planos sem entrada. A elevação é de até um ponto percentual.

Apesar de não confirmar dados, profissionais do segmento atestam que atualmente cerca de 30% dos financiamentos de veículos são fechados entre 24 e 48 parcelas, exatamente o percentual que sentirá maior peso na taxa de juros.

Hoje, 56% da frota nacional é financiada, de acordo com a Anef (Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras), o que representa R$ 173,1 bilhões de movimentação no mercado até agosto.

Procurada, a Anef diz que ainda avalia a situação e os números para dar posicionamento correto ao setor, sem definir prazos exatos para isso. Apesar da expectativa de queda nas vendas já ter sido anunciada, o valor do rombo em reais não pode ser calculado, uma vez que as empresas acabaram de anunciar novas taxas e programam alternativas para superar a possível crise nos próximos meses.

Com o anúncio das mudanças dos juros, a prestação do carro já tem diferença. Na compra em 60 vezes de um Celta, por exemplo, o valor de prestação salta de R$ 655 para até R$ 879. Ao fim de cinco anos, o comprador terá desembolsado R$ 13.457,40 a mais pelo carro, em razão da alta dos juros.

Para evitar a elevação, o BC determinou que seja exigida do consumidor parcela inicial que equivale a 20% do valor do veículo nos planos em 36 meses, 30% nos financiamentos em 48 vezes e de 40% nos de 60 meses. Nos financiamentos em 24 meses não há exigência de entrada e a taxa de juros foi mantida. Os juros aumentam apenas para os planos que não exigiam entrada.

Classes C e D são as mais prejudicadas com medida

Considerada a menina dos olhos do mercado de crédito nacional, a classe C, nova classe média brasileira, perdeu grande parte do encanto com as mudanças na concessão de crédito. Acostumada com facilidades como juro baixo e compra sem entrada, essa fatia da população brasileira viu o sonho do automóvel ficar mais distante nesta semana.

Segundo fontes do setor, a queda de 20% nas vendas para 2011 equivale, em sua maioria, às famílias da classe C, que pretendiam trocar de carro. Pesquisa recente feita pelo instituto Data Popular conta que 60% dessa faixa de renda tinha como maior desejo a compra de veículo neste fim de ano.

Com orçamento ainda apertado, as facilidades na concessão de crédito, que caíram por terra na semana passada, eram primordiais para essas famílias, que dificilmente possuem os cerca de 30% de entrada exigidos agora pelo setor.

A Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos automotores) já reconheceu que 2011 será um ano muito enxuto para o segmento graças às restrições.

No entanto, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) avalia que as medidas serão passageiras e não deverão comprometer o segmento ao longo do ano. É esperar para ver.

Fonte: Diário do Grande ABC