Março: deu a louca no setor de autopeças novamente

A notícia vazou antes da hora pretendida pela indústria automobilística. O IPI reduzido vai valer por mais três meses – deu no Jornal da Globo, correu pela Internet e saiu nos jornais. Bom para o consumidor. Complicado para montadoras e concessionárias que programaram feirões no final de semana, usando como apelo os ‘últimos dias com IPI reduzido’.

No sábado pela manhã o website da Globo (www.globo.com) trazia vídeo da matéria em que o repórter José Burnier anunciava no Jornal da Globo a continuidade da redução do IPI. Para o consumidor que corria para comprar o carro novo, a notícia serviu como um alívio.

O setor automotivo vai comemorar a prorrogação, iniciativa que contribuirá para a manutenção das vendas e também para que a cadeia de produção possa se ajustar. “Estamos vivendo novamente dias loucos com as dúvidas sobre a continuidade do benefício do IPI” – disse um diretor de uma importante empresa sistemista do setor de autopeças na sexta-feira, antes da notícia da prorrogação vazar. A própria Anfavea esperava que a informação chegasse ao mercado na segunda ou terça-feira.

Para as empresas de autopeças março trouxe um corre-corre que não acontecia desde setembro do ano passado, quando o ritmo ainda era de alta. Com a informação de que os carros fabricados até 31 de março estariam livres de um possível retorno ao IPI normal, as fabricas de veículos aceleraram. Bastante. Embora haja capacidade instalada de sobra para atender a demanda, falta mão de obra.

Assustada pela crise, boa parte das empresas de autopeças dispensou trabalhadores e agora tenta equacionar fórmulas para atender as encomendas. Voltam a improvisação, as horas extras e os helicópteros para atender o abastecimento de matérias-primas e a entrega das peças prontas.

Quem presta atenção nesse filme sabe as dificuldades para quem trabalha na produção, seja em programação, logística ou manufatura. Entregar as encomendas passa a ser um enorme desafio, que começa com o esforço de coordenar os suprimentos junto aos fornecedores. Se até recentemente cortar custos e racionalizar as operações era palavra de ordem, agora voltam à tona os desperdícios causados pela pressa, o risco de errar e os problemas de qualidade.

Para os estudiosos dos conceitos de produção da Toyota, essa situação é o pior dos mundos. Um dos principais fatores de sucesso do sistema de produção da montadora japonesa passa pelo empenho de estabilizar a produção, definindo-se o ritmo das linhas de montagem e a sincronia entre os players da cadeia.

A crise derrubou a estabilidade desejada e acentuou a ciclotimia na produção automotiva. De olho no fluxo de caixa, nas pressões das matrizes no exterior e na programação das montadoras ditada no curto prazo, dirigentes das empresas de autopeças e do Sindipeças mal tem tempo de traçar estratégias de médio e longo prazo e sonhar com a volta à estabilidade.

Com o horizonte de três meses trazido pela prorrogação da redução do IPI é possível, agora, repensar com algum cuidado os ajustes necessários na cadeia de produção.

Fonte: Automotive Business