Montadora transformou a realidade das cidades

Valor Econômico | 5/12/2008 – 11h23

Encravada bem no centro da cidade, que tem apenas 15 quilômetros quadrados, a fábrica da General Motors em São Caetano do Sul, representa um ícone para o município e seus cidadãos.
“O funcionário da GM tem até nariz empinado”, diz o assessor para a área de desenvolvimento do município, Fernando Trincado. Por ser pequena e ter a multinacional bem no meio da principal avenida, São Caetano revela a intimidade com a GM o tempo todo.

As notícias que chegam de Detroit, sede da companhia, preocupam a equipe do prefeito reeleito José Auricchio Júnior (PTB). Segundo Trincado, esta é uma discussão geral na cidade. “É pauta constante, seja pela questão histórica, econômica e pelo que pode acontecer”, completa. Para ele, esta é uma “fase preocupante”. “Não se sabe até que ponto vai nos atingir”, destaca.

Em São Caetano, um município do ABC onde a CUT não comanda os metalúrgicos, a GM está recortada em vários terrenos, espalhados em três bairros. Foi ali que a empresa se instalou quando escolheu investir no Brasil, em 1930, depois de breve passagem pelo bairro do Ipiranga, em São Paulo. Dessa fábrica saiu o primeiro carro Chevrolet no país, o lendário Opala.

A multinacional ocupa 881,3 mil metros quadrados de São Caetano, ou seja, 3,3% da área total do município. É o mais acanhado complexo industrial da companhia no país. Mas é um dos que apresenta as melhores soluções de manufatura, com capacidade para montar diversos modelos na mesma linha.

A GM ocupa mais ou menos dois quintos da extensão da Avenida Goiás, uma via que liga São Caetano com São Paulo e Santo André. A mesma avenida, onde há décadas o apito da GM ecoa diariamente, às 12h e às 17h, à noite recebe jovens da cidade e bairros de São Paulo próximos, que estacionam os carros em frente de bares e danceterias, em busca de paquera.

São Caetano cresceu à esteira do desenvolvimento da GM. Segundo a diretora de pesquisa da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Maria do Carmo Romeiro, a participação da indústria na cidade saiu de 33,74% em 2002 para 46,45%. Como muitas indústrias deixaram o município e a GM passou a produzir mais, a conclusão é que a força dessa única empresa fez o percentual crescer. Para a pesquisadora, eventual falência da montadora representaria “um rombo enorme para a arrecadação”, além de “um grande constrangimento.

Segundo Trincado, a montadora garante 30% do retorno do ICMS e 8,5% de toda a arrecadação do município. Mas, além da fábrica e do clube, a GM tem em São Caetano seu maior orgulho: ali está um dos cinco centros de desenvolvimento tecnológico que a companhia tem espalhados pelo mundo. Com o aumento dos custos com engenharia nos EUA, parte dos projetos está sendo deslocada de Detroit para o bairro Barcelona, no município do ABC.

A 23 quilômetros de Porto Alegre, Gravataí era uma cidade-dormitório antes da inauguração da fábrica do Celta, em 2000. O espaço ocupado por residências e sítios de lazer foi desapropriado pelo governo do Estado no pacote de incentivos fiscais, financeiros e de infra-estrutura concedidos para a empresa.

Hoje, nessa região, as dificuldades enfrentadas pela GM são fonte de ansiedade não apenas para os 2,3 mil funcionários da montadora e os 1,7 mil dos fornecedores sistemistas. Uma eventual quebra da empresa seria um “desastre” para a cidade devido aos efeitos sobre o comércio, serviços, hotelaria, mercado imobiliário e a arrecadação da prefeitura, diz o presidente da Fundação de Economia e Estatística (FEE), vinculada à Secretaria do Planejamento do Rio Grande do Sul, Adelar Fochezatto.

Desde a inauguração da fábrica, o “efeito GM” revigorou a economia de Gravataí, que vinha com um desempenho inferior à do Estado e inverteu a situação, explica Fochezatto, também professor da faculdade de economia da PUC-RS. “A dinâmica da cidade passou a ser maior do que a do Rio Grande do Sul”. Como conseqüência, o Produto Interno Bruto municipal cresceu 103% até 2005, último dado disponível, para R$ 3,7
Fonte: Webtranspo