Técnica para desamassar carros sem troca nem pintura

Martelinho de ouro – Martela o martelinho Paulo é um profissional tipo exportação de um ramo no qual o País é o melhor do mundo

Ivan Marsiglia – O Estado de S.Paulo

Choveu na horta de Paulo Alves no início do ano. Chuva de granizo. A economia mundial fazendo água por todos os lados e esse brasileiro radicado em Lisboa expandiu seus negócios – graças à costumeira ajuda de São Pedro no inverno europeu. É nessa estação que as tempestades de gelo castigam o Velho Continente e esse paulista nascido na região do Vale do Paraíba tem a chance de lavar a égua. Paulo, 33 anos, é funileiro e pintor. Mais que isso, ele é “martelinho de ouro”. E, para ser realmente preciso, Paulo é um empresário internacional. Importa do Brasil um tipo de mão de obra cujo know-how não tem paralelo no mundo.

A arte do martelinho consiste em recuperar a lataria de veículos amassados sem ter que trocar a peça ou refazer a pintura. É um trabalho executado com precisão cirúrgica e instrumentos específicos. É útil no caso de pequenas colisões, um choque desastrado com a pilastra da garagem ou uma bolada das crianças no capô. Mas é inestimável quando caem do céu pedras de gelo do tamanho de uma bola de golfe – pontilhando a carroceria dos automóveis de uma cidade inteira ou do pátio de uma montadora. Uma intempérie dessas significa um manancial de oportunidades para Paulo.

“Nosso maior cliente são grandes seguradoras que consertam carros de particulares”, explica ele, que conta com uma equipe de 20 martelinhos oriundos da Grande São Paulo e interior do Estado, Rio de Janeiro ou Paraná, que passam temporadas de dois ou três meses no exterior a consertar Porsches, Mercedes e BMWs. De junho a fevereiro, eles martelam o martelinho em Portugal, Espanha, Holanda e Alemanha. De fevereiro a maio, batem lata na Argentina, Uruguai e até Brasil.

Se o serviço é grande, Paulo lança mão de uma equipe extra, que pode chegar a 80 trabalhadores – como ocorreu em fevereiro, quando recuperaram 4 mil carros amassados por granizo na Argélia. “Foi um desafio, num país muçulmano, com cultura muito diferente da nossa”, lembra ele, que mal falava inglês quando chegou à Europa, em 2004. Atualmente, até que se vira e conduz a tropa monoglota pelos países mais longínquos, de culinárias as mais estranhas ao paladar arroz-com-feijão da rapaziada.

Na violenta capital, Argel, eles mal tiveram coragem de sair do hotel Sheraton. Nada dos passeios e momentos de relax a que o grupo se permite ocasionalmente. Em Frankfurt, onde martelaram até entregar seminovos 13 mil automóveis estropiados – recorde do grupo até agora -, puderam desfrutar de boas rodadas do chope local.

Divertida mesmo foi a temporada holandesa, quando os martelinhos, todos na faixa dos 20, 30 anos, curtiram um bate-estaca na noite de Amsterdã. “Morri de rir com o pessoal paquerando aquelas holandesas lindas e, quando elas chegavam para conversar, ficava um olhando pra cara do outro, sem entender nada”, diverte-se esse misto de chefe e guia turístico.

A labuta dos martelinhos globalizados, entretanto, é pesada: 11 horas diárias, seis dias por semana. Trabalho regiamente remunerado, diga-se, embora eles se recusem a falar em cifras, temendo não o imposto de renda, mas o olho grande e a violência de suas vizinhanças de classe média baixa no Brasil.

“Bons profissionais do ramo são tão valorizados que preferem trabalhar como autônomos”, diz Antonio Fiola, presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios, em São Paulo. O sindicato luta para que os incentivos concedidos pelo governo às montadoras se estendam às empresas do setor – um dos que mais empregam na cadeia produtiva do automóvel. Somente em 2008, as cerca de 85 mil oficinas de funilaria e mecânica espalhadas pelo País tiveram um faturamento de R$ 22,4 bilhões e geraram 671 mil postos de trabalho. Desses funcionários, o martelinho de ouro é o mais requisitado. “Eles são a elite das oficinas”, resume Fiola, que calcula não haver mais que 10 mil em atividade no País.
Fonte: O Estado de São Paulo