Um panorama dos chineses


Recorde dos EUA em 2005 enfim será batido neste ano pelo país do Oriente

por FERNANDO CALMON

A chegada das marcas chinesas ao país tem sido lenta, embora seguida com interesse em razão do gigantismo e da força industrial do país mais populoso do mundo. No setor automobilístico a China experimenta um crescimento explosivo. Todas as previsões apontavam que seria o maior produtor e o maior mercado do mundo, ultrapassando os EUA. A crise financeira de 2008 antecipou os resultados.

Em 2009 produziu quase 14 milhões de veículos, patamar que nenhum país jamais alcançou em intervalo anual. O mercado interno chinês no ano passado atingiu o mesmo nível, superando de longe a referência americana ainda sob forte impacto das adversidade. No melhor ano, 2005, os EUA contabilizaram 17,5 milhões de unidades vendidas. Esse recorde, que parecia difícil de ser batido por outro país, será ultrapassado em 2010.

A indústria automobilística na China é dominada por companhias e produtos estrangeiros, porém sempre em sociedade meio a meio com grupos locais. O cenário está mudando. Entre 2004 e 2009 a participação das marcas totalmente chinesas, quase todas estatais, cresceram de 22% para 32% do mercado total. E continuarão subindo por uma razão simples: se a tecnologia nativa é fraca, compram o melhor disponível no mundo. Dentro de um universo de 150 produtores, seis pratas da casa se destacam: Chery, BYD, Geely, Greatwall, Brilliance e JAC.

No Brasil marcas menores começaram timidamente há três anos. Chana, Change (Effa), Hafei e Jinbei procuraram se aninhar no segmento de comercais leves. A Chery, no entanto, tem planos ambiciosos, antecipados por essa coluna e confirmados agora no lançamento para a imprensa do Cielo. Primeiro médio-compacto chinês aqui comercializado, destaca-se pelo desenho moderno e harmonioso de Pininfarina, tradicional estúdio italiano. Além de uma fábrica de 100 mil unidades/ano para 2013, montará um centro de desenvolvimento, ambos no Estado de São Paulo. A cidade será anunciada até julho.

Luis Curi, presidente da importadora, reconhece as dificuldades: “Sabemos que não temos direito ao erro, sob o estigma de que produto chinês não é pleno de confiabilidade”. O primeiro modelo lançado, o utilitário esporte compacto Tiggo, teve aceitação modesta. O Cielo, nas versões hatch e sedã pelo mesmo preço de R$ 42 mil, projeta potencial maior pelo que oferece em equipamentos. Nada é opcional, do sensor de estacionamento à regulagem de altura do volante (em distância, não) e dos cintos de segurança dianteiros, passando pelo rádio-toca CD/USB.

Porém há contrassensos. Somente o hatch dispõe de saídas individuais de escapamento (no Stilo, por exemplo, são de enfeite), enquanto nenhuma versão oferece ajuste de altura do banco do motorista. Assim a visibilidade fica um pouco prejudicada, pois o painel é volumoso. O motor de 1,6 l/119 cv (só a gasolina de início), aperfeiçoado pela austríaca AVL, está entre os pontos altos.

O rodar também é bom – suspensão independente na frente e atrás –, mas há ruídos mecânicos além do aceitável. Falhas de acabamento e junções indicam que os chineses ainda terão muito chão à frente. Resta saber se conseguirão manter preços competitivos, como os coreanos. A recente primeira greve na China (contra a Honda) é um sinal.

Fonte: Interpress Motor